O rio São Francisco e a questão
socioambiental: para entender o jejum do franciscano bispo Cappio |
É fundamental pararmos um instante para a reflexão
do problema ambiental no Brasil. Recentemente, a conduta profética
do bispo franciscano D. Frei Luis Flávio Cappio (da Ordem dos Frades
Menores) chama a nossa atenção. Topei com Frei Luís,
quando ainda não tinha sido nomeado bispo de Barra na Bahia, e
desde então nutri por este homem uma admiração. Recentemente,
quando me hospedava no convento dos frades menores (ou franciscanos) em
Brasília (DF), ainda durante minhas pesquisas de doutorado sobre
meio ambiente, encontrei-o novamente. Ele, na ocasião, estava ali
para as audiências com o presidente da República acerca da
transposição do rio São Francisco. Minha admiração
aumentou. Sente-se um ardor evangélico, um sabor de autêntico
franciscanismo, de contemplação mística, de silêncio
habitado por Deus em seus gestos e palavras. D. Luís Flavio, resolveu abandonar a vida cômoda do sul e partir para a região do rio São Francisco. Não era ainda bispo. Lá visitou os povoados ribeirinhos e viu a situação de desamparo em que se encontravam a gente e a natureza. Durante muito tempo, atravessou de barco toda a extensão do S. Francisco. Conhece como ninguém o primeiro rio conhecido do Brasil, cujo nome é homenagem ao santo padroeiro da ecologia e também fundador da Ordem dos Frades Menores da qual D. Frei Luís Flávio é membro. O povo nordestino e do norte de Minas é grande devoto do santo de Assis, graças também a ação pioneira dos filhos de são Francisco na evangelização do Brasil. Pois bem: Frei Luis, natural de Guaratinguetá como o outro franciscano e brasileiro ilustre santo Antônio Galvão, permaneceu ali a servir o povo de Deus como pastor e profeta do Reino, às margens do São Francisco, altamente sensibilizado com a causa dos ribeirinhos – aqueles que vivem à margem do rio São Francisco e por isso mantém modos de vida e costumes altamente vinculados à natureza da região.Viu que gente e rio se nutrem mutuamente. Seus destinos estão ligados. Não tardou o reconhecimento: nomearam-no bispo de uma diocese com muita gente e quase nenhum clero. Não esmoreceu, alimentado pelo seu senso de pastor, pela humildade, pela sensibilidade e pela determinação características dos legítimos filhos de São Francisco. Recentemente, em decorrência da retomada do antigo projeto de transposição do rio, o bispo D. Cappio, conhecedor como poucos da realidade do sertanejo do rio S. Francisco, uniu-se a outras vozes em defesa da vida do rio e da vida do povo a ele vinculado, contra a insanidade da transposição. Mas qual é mesmo o problema da transposição? Ouçamos um especialista: “Agora é a vez da Transposição, obra inócua e desprovida de significado, pois que o Nordeste setentrional, penhoradamente, agradece e dispensa as águas do rio São Francisco, por total e absoluta falta de necessidade, uma vez que já acumula, somente nos 8 grandes açudes, 13 bilhões de metros cúbicos de água, (5 vezes e meia a baia da Guanabara), exatamente os 8 açudes plurianuais que irão receber os magros 2 bilhões/m³ anuais (127m³/s) aduzidos do canal da Transposição. A evaporação anual dos 13 bilhões é da ordem de 4 bilhões, o dobro da água que vai chegar do rio. Uma irrisão. Mais ainda, os 3 estados mais ávidos por mais água, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará já acumulam nos seus imensos reservatórios 26 bilhões de metros cúbicos, 70%das águas reservadas no Semi-Árido brasileiro, 11 vezes as águas da baia da Guanabara. Pela vulnerabilidade deste grande Projeto, numa análise cartesiana, somos levados a pensar que ele não resistirá a uma travessia administrativa e pode morrer na praia. Até mesmo o Coordenador Geral da Transposição, Rômulo Macedo, ilustre e ilustrado engenheiro, receia que, faltando continuidade administrativa como soe acontecer, esta obra se transforme numa Transamazônica (ISTO È nº 1964), que, como todos sabem, é uma vergonha nacional”. (Manoel Bonfim Ribeiro. Transposição – uma análise cartesiana. Artigo publicado no CADERNO CEAS 227, Especial Rio São Francisco, Dezembro 2007) Some-se a isso o fato de o projeto defendido por D. fr. Cappio ser extremamente mais econômico (estima-se que o custo do projeto governamental é de 6,6 bilhões contra 3,6 bilhões do projeto defendido pelo bispo e pelos movimentos sociais), muito menos danoso (pois visa essencialmente o abastecimento humano e rural, socializa as águas das barragens, açudes, subterrâneas, de chuva e a adutoras a partir do São Francisco, enquanto o projeto do governo tem impactos nefastos sobre a natureza, os ribeirinhos, populações indígenas) e socialmente mais viável que o projeto da transposição (destina-se ao benefício direto de uma população de 44 milhões de pessoas contra apenas 12 milhões da transposição, 9 estados nordestinos mais o norte de Minas, contra apenas 4 estados beneficiários da transposição; atinge 1356 municípios contra 397 municípios do projeto do governo). Estes e outros números atestam a desproporção do projeto da transposição em relação a do bispo, das comunidades e dos movimentos sociais. Então por que se insiste na transposição? Com efeito, a transposição traz em si as marcas de todos os grandes projetos desenvolvimentistas do Brasil. Aliás, é bom que se diga, em tom claro e límpido, que no Brasil a exploração da natureza, sem preocupação de preservação ou conservação, é conduta que vem desde o início da colonização. Até o nome do país retrata os ciclos de exploração da natureza: a homenagem ao pau-brasil, mal disfarça o primeiro ciclo de devastação ambiental em nossa pátria, e os interesses de abater a cobertura vegetal em vista dos interesses da metrópole e dos centros europeus. Por isso mesmo a transposição é projeto antigo, maquiado com novos nomes e tecnologia. Hoje, porém, sucede a mesma coisa de outrora: por trás da transposição e dos outros projetos desenvolvimentistas, estão a ganância e o interesse de produção de bens visando principalmente à exportação, com o enriquecimento sem limites dos já ricos. E isso acontece em toda parte: com a especulação imobiliária a destruir as unidades de conservação e parques em todo o território nacional; com a construção de barragens em vista de produção da energia elétrica; o aumento da produção industrial em beneficio da exportação e do consumo desenfreado; a produção agrícola monocultureira, com o comprometimento dos mananciais e da flora e fauna locais, como são exemplos as culturas canavieiras e da soja, e assim por diante. Tudo em favor de poucos privilegiados, muitas vezes protegidos pelo capital estrangeiro, e em prejuízo da maioria da população brasileira. Vale lembrar: a natureza é o único e verdadeiro patrimônio comum da humanidade. Pobres e ricos vivemos numa casa comum: o planeta terra. E a vida humana é parte integrante da vida no universo. Destruir os outros seres, comprometer o curso das nascentes e rios, poluir, degradar, devastar e prejudicar o subsolo, as águas e os seres é, forçosamente, destruir a vida humana. Carros, roupas, jóias, casas, e todos os artefatos humanos estão sujeitos à degradação. Mais cedo ou mais tarde tornam-se dejetos, lixo mesmo. Veja a energia que gastamos pensando como tornar reciclável o que criamos de lixo imperecível! E não convém nos auto-destruir por tão pouco. Ficamos todos loucos? Onde está a inteligência humana? Quando se destrói o meio ambiente, os ecossistemas (constituídos de águas, plantas, animais, solo, interações e reações milenares), os primeiros afetados são os mais pobres, que com ele convivem diretamente e dele extraem seu sustento. Mas a médio ou longo prazo, todos são afetados, pois a vida e as vidas são interdependentes. Tudo e todos vivem e dependem dos outros seres. Comprometer a água ou o solo ou uma espécie de animal ou vegetal é comprometer a toda a existência. Destruir o patrimônio comum e sobretudo a única riqueza de que dispõe os pobres (em verdade, a única riqueza relevante de todos nós). Em termos simples e diretos, essa é a questão socioambiental. Pensemos nisso. E agradeçamos a este franciscano a sua coragem de perder a vida pela Vida. Está fazendo por nós o que nós mesmos deveríamos fazer: lutar em defesa da vida dos pobres e da natureza, obras do Criador, a quem vamos responder por todos os danos praticados. Por fim, convido a todos a participar desta luta. Quem puder acesse o site: http://www.umavidapelavida.com.br/ e entenderá melhor o processo de que estamos falamos. Autor: Frei Marcio Henrique Pereira, ofm – frade e presbítero da Ordem dos Frades Menores (Frades Franciscanos). Defendeu tese de doutorado sobre política pública socioambiental na Universidade de Brasília (UnB), em outubro passado. |