ADMOESTAÇÕES (Adm)
As Admoestações são uma coleção de 28 textos curtos (só a primeira é um pouco maior) que tem ampla presença nos manuscritos medievais. Uma das Adm foi o primeiro texto de Francisco citado fora da Ordem (em 1231) por um frade dominicano. Lembra-se que Francisco costumava fazer alocuções a todos os frades nos capítulos gerais. Algumas destas admoestações podem provir desses capítulos, mas não todas. Do nº 1 ao 13 os temas são variados; do 14 ao 28 formam o que se chama de “bem-aventuranças fran-ciscanas”. Provavelmente são textos que só foram falados por São Francisco e que foram preservados porque alguém tomou nota. É até possível que tenha sido alguém de fora da Ordem (pensa-se em um cisterciense secretário do Card. Hugolino) porque usa expressões como prelado, servo de Deus, etc. que não eram comuns no meio franciscano. As Admoestações são um bom resumo da proposta espiritual de São Francisco.
Texto Original
 
Texto Traduzido
I. DE CORPORE DOMINI
 
1. O CORPO DO SENHOR
1 Dicit Dominus Jesus discipulis suis: Ego sum via, veritas et vita; nemo venit ad Patrem nisi per me. 2 Si cognosceretis me, et Patrem meum utique cognosceretis; et amodo cog-noscetis eum et vidistis eum. 3 Dicit ei Philippus: Domine, ostende nobis Patrem, et sufficit nobis. 4 Dicit ei Jesus: Tanto tempore vobiscum sum et non cognovistis me? Philippe, qui videt me, videt et Patrem (Ioa 14,6-9) meum. 5 Pater lucem habitat inaccessibilem (cfr. 1Tim 6,16), et spiritus est Deus (Ioa 4,24), et Deum nemo vidit umquam (Ioa 1,18). 6 Ideo nonnisi in spiritu videri potest, quia spiritus est qui vivificat; caro non prodest quidquam (Ioa 6, 64). 7 Sed nec filius in eo, quod aequalis est Patri, videtur ab aliquo aliter quam Pater, aliter quam Spiritus Sanctus. 8 Unde omnes qui viderunt Dominum Jesum secundum humanitatem et non viderunt et crediderunt secundum spiritum et divinitatem, ipsum esse verum Filium Dei, damnati sunt; 9 ita et modo omnes qui vident sacramentum, quod sanctificatur per verba Domini super altare per manum sacerdotis in forma panis et vini, et non vident et credunt secundum spiritum et divinitatem, quod sit veraciter sanctissimum corpus et sanguis Do-mini nostri Jesu Christi damnati sunt, 10 ipso altissimo attestante, qui ait: Hoc est corpus meum et sanguis mei novi testamenti [qui pro multis effundetur] (cfr. Mar 14,22.24) et: 11 Qui manducat carnem meam et bibit sanguinem meum, habet vitam aeternam (cfr. Ioa 6,55). 12 Unde spiritus Domini, qui habitat in fidelibus suis, ille est qui recipit sanctissimum corpus et sanguinem Domini. 13 Omnes alii, qui non habent de eodem spiritu et praesumunt recipere eum, iudicium sibi manducant et bibunt (cfr. 1Cor 11,29). 14 Unde: Filii hominum, usquequo gravi corde? (Sl 4,3). 15 Ut quid non cognoscitis veritatem et creditis in Filium Dei (cfr. Ioa 9,35)? 16 Ecce, quotidie humiliat se, sicut quando a regalibus sedibus (Sb 18, 15) venit in uterum Virginis; 17 quotidie venit ad nos ipse humilis apparens; 18 quotidie descendit de sinu Patris super altare in manibus sacerdotis. 19 Et sicut sanctis apostolis in vera carne, ita et modo se nobis ostendit in sacro pane. 20 Et sicut ipsi intuitu carnis suae tantum eius carnem videbant, sed ipsum Deum esse credebant oculis spiritualibus contemplantes; 21 sic et nos videntes panem et vinum oculis corporeis videamus et credamus firmiter, eius sanctissimum corpus et sanguinem vivum esse et verum. 22 Et tali modo semper est Dominus cum fidelibus suis, sicut ipse dicit: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi (cfr. Mat 28,20).
 
1 Diz o Senhor Jesus a seus discípulos: Eu sou caminho, verdade e vida; ninguém vai ao Pai se não por mim. 2 Se conhecesses a mim, também conheceríeis certamente meu Pai; e desde agora o conheceis e o vistes. 3 Diz-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e basta para nós. 4 Diz-lhe Jesus: Tanto tempo estou con-vosco e não me conhecestes? Filipe, quem me vê, vê também meu Pai (Jo 14,6-9). 5 O Pai habita a luz inacessível (cf. 1 Tm 6,16), e Deus é espírito (Jo 4,24), e a Deus nunca ninguém viu (Jo 1,18). 6 Por isso não pode ser visto senão em espírito, porque é o espírito que vivifica; a carne não adianta nada (Jo 6,64). 7 Mas nem o Filho, no que é igual ao Pai, é visto por alguém diferentemente do Pai, diferentemente do Espírito Santo. 8 Por isso todos os que viram o Senhor Jesus segundo a humanidade e não viram e creram segundo o espírito e a divindade que ele era o verdadeiro Filho de Deus, foram condenados; 9 assim também agora todos os que vêem o sacramento que se consagra pelas palavras do Senhor sobre o altar por mão do sacerdote na forma de pão e vinho, e não vêem e crêem segundo o espírito e a divindade, que é verdadeiramente o santíssimo corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, foram condenados, 10 pelo testemunho do próprio Altíssimo, que diz: Este é meu corpo e meu sangue do Novo Testamento [que será derramado por muitos] (Mc 14,22,24) e: 11 Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna (cf Jo 6,55). 12 Por isso o espírito do Senhor, que mora em seus fiéis, é quem recebe o san-tíssimo corpo e sangue do Senhor. 13 Todos os outros, que não têm o mesmo espírito e presumem recebê-lo, comem e bebem a própria condenação (cfr. 1Cor 11,29). 14 Por isso: Filhos dos homens, até quando tereis um coração pe-sado? (Sl 4,3). 15 Por que não conheceis a verdade e credes no Filho de Deus? (cfr. Jo 9,35). 16 Eis que se humilha diariamente, como quando veio do trono real (Sb 18, 15) ao útero da Virgem; 17 vem diariamente a nós ele mesmo aparecendo humilde; 18 desce todos os dias do seio do Pai (cfr. Jo 6,38; 1,18) sobre o altar nas mãos do sacerdote. 19 E como se mostrou aos santos apóstolos em carne verdadeira, assim também a nós agora no pão sagrado. 20 E como eles com a visão de sua carne só viam a carne dele, mas criam que era Deus contemplando com olhos espirituais; 21 assim também nós, vendo o pão e o vinho com os olhos corporais, vejamos e creiamos firmemente que é seu santíssimo corpo e sangue vivo e verdadeiro. 22 E desse modo o Senhor está sempre com os seus fiéis, como ele mesmo diz: Eis que estou convosco até a consumação do século (cfr. Mt 28,20).
II. DE MALO PROPRIAE VOLUNTATIS
 
2. O MAL DA VONTADE PRÓPRIA
1 Dixit Dominus ad Adam: De omni ligno comede, de ligno autem boni et mali non comedas (cfr. Gen 2,16-17). 2 De omni ligno paradisi poterat comedere, quia dum non venit contra obedientiam, non peccavit. 3 Ille enim comedit de ligno scientiae boni, qui sibi suam voluntatem appropriat et se exaltat de bonis, quae Dominus dicit et operatur in ipso; 4 et sic per suggestionem diaboli et transgressionem mandati factum est pomum scientiae mali. 5 Unde oportet, quod sustineat poenam.
 
1 Disse o Senhor a Adão: Come de toda árvore, mas da árvore do bem e do mal não comas (cfr. Gn 2,16-17). 2 Podia comer de toda árvore do pa-raíso porque, enquanto não foi contra a obediência, não pecou. 3 Pois come da árvore da ciência do bem aquele que se apropria de sua vontade e se exalta pelos bens que o Senhor diz e opera nele; 4 e assim, por sugestão do diabo e por transgressão do mandamento, tornou-se pomo da ciência do mal. 5 Por isso precisa sofrer a pena.
III. DE PERFECTA OBEDIENTIA
 
3. A OBEDIÊNCIA PERFEITA
1 Dicit Dominus in Evangelio: Qui non renunciaverit omnibus quae possidet, non potest meus esse discipulus (Luc 14,33); et: 2 Qui voluerit animam suam salvam facere perdet illam (Luc 9,24). 3 Ille homo relinquit omnia, quae pos-sidet, et perdit corpus suum, qui se ipsum totum praebet ad obedientiam, in manibus sui praelati. 4 Et quidquid facit et dicit, quod ipse sciat, quod non sit contra voluntatem eius, dum bonum sit quod facit, vera obedientia est. 5 Et si quando subditus videat meliora et utiliora animae suae quam ea quae sibi praelatus praecipiat, sua voluntarie Deo sacrificet; quae autem sunt praelati, opere studeat adimplere. 6 Nam haec est caritativa obedientia (cfr. 1Pet 1,22), quia Deo et proximo satisfacit. 7 Si vero praelatus aliquid contra ani-mam suam praecipiat, licet ei non obediat, tamen ipsum non dimittat. 8 Et si ab aliquibus persecutionem inde sustinuerit, magis eos diligat propter Deum. 9 Nam qui prius persecutionem sustinet, quam velit a suis fratribus separari, vere permanet in perfecta obedientia, quia ponit animam suam (cfr. Ioa 15,13) pro fratribus suis. 10 Sunt enim multi religiosi, qui sub specie meliora videndi quam quae sui praelati praecipiunt, retro aspiciunt (cfr. Luc 9,62) et ad vomitum (cfr. Prov 26,11; 2Pet 2,22) propriae voluntatis redeunt; 11 hi homicidae sunt et propter mala sua exempla multas animas perdere fa-ciunt.
 
1 Diz o Senhor no Evangelho: Quem não renunciar a tudo que possui, não pode ser meu discípulo (Lc 14,33); e: 2 Quem quiser salvar sua alma, vai perdê-la (Lc 9,24). 3 Deixa tudo que possui e perde seu corpo o homem que se entrega inteiro à obediência, nas mãos de seu prelado. 4 E tudo que faz e diz, que saiba que não é contra sua vontade, se é bom o que faz, é verdadeira obediência. 5 E se alguma vez o súdito vê coisas melhores e mais úteis para sua alma que as que lhe ordena o prelado, sacrifique as suas voluntariamente a Deus, e trate de cumprir com obras as coisas que são do prelado. 6 Pois essa é a obediência caritativa (cf 1Pe 1,22), que satisfaz a Deus e ao próximo. 7 Mas se o prelado ordenar alguma coisa contra a sua alma, ainda que não lhe obedeça, todavia não se separe dele. 8 E se por isso sofrer perseguição de alguns, ame-os mais por Deus. 9 Pois o que prefere sofrer perseguição a separar-se de seus irmãos, permanece de verdade na obediência perfeita, porque dá sua vida (cfr. Jo 15, 13) por seus irmãos. 10 Pois há muitos religiosos que, com a desculpa de que vêem coisas melhores do que as mandadas por seus prelados, olham para trás (cfr. Lc 9,62) e voltam ao vômito (cfr. Pr 26,11; 2Pd 2,22) da própria vontade; 11 estes são homicidas e, por seus maus exemplos, põem a perder muitas almas.
IV. UT NEMO APPROPRIET SIBI PRAELATIONEM
 
4. QUE NINGUÉM SE APROPRIE DA PRELATURA
1 Non veni ministrari, sed ministrare (cfr. Mat 20,28), dicit Dominus. 2 Illi qui sunt super alios constituti, tantum de illa praelatione glorientur, quantum si essent in abluendi fratrum pedes officio deputati. 3 Et quanto magis turbantur de ablata sibi praelatione quam de pedum officio, tanto magis sibi loculos ad periculum animae componunt.
 
1 Não vim para ser servido mas para servir (cfr. Mt 20,28), diz o Senhor. 2 Os que estão constituídos sobre os outros, gloriem-se dessa prelatura como se tivessem sido encarregados do ofício de lavar os pés dos irmãos. 3 E quanto mais se perturbam por lhes tirarem a prelatura do que por lhes tirarem o ofício de lavar pés, tanto mais acumulam bolsas para o perigo da alma.
V. UT NEMO SUPERBIAT, SED GLORIETUR IN CRUCE DOMINI
 
5. QUE NINGUÉM SE ENSOBERBEÇA MAS SE GLORIE NA CRUZ DO SENHOR
1 Attende o homo, in quanta excellentia posuerit te Dominus Deus, quia creavit et formavit te ad imaginem dilecti Filii sui secundum corpus et similitudinem (cfr. Gen 1,26) secundum spiritum. 2 Et omnes creaturae quae sub caelo sunt, secundum se serviunt, cognoscunt et obediunt Creatori suo melius quam tu. 3 Et etiam daemones non crucifixerunt eum sed tu cum ipsis crucifixisti eum et adhuc crucifigis delectando in vitiis et peccatis. 4 Unde ergo potes gloriari? 5 Nam si tantum esses subtilis et sapiens quod omnem scientiam (cfr. 1Cor 13,2) haberes et scires interpretari omnia genera linguarum (cf 1 Cor 12,28) et subtiliter de caelestibus rebus perscrutari, in omnibus his non potes gloriari; 6 quia unus daemon scivit de caelestibus et modo scit de terrenis plus quam omnes homines, licet aliquis fuerit, qui summae sapientiae cognitionem a Domino receperit specia-lem. 7 Similiter et si esses pulchrior et ditior omnibus et etiam si faceres mirabilia, ut daemones fugares, omnia ista tibi sunt contraria et nihil ad te pertinet et in nil potes gloriari; 8 sed in hoc possumus gloriari in infirmitatibus (cfr. 2Cor 12, 5) nostris et baiulare quotidie sanctam crucem (cfr. Luc 9,23; 14,27) Domini nostri Jesu Christi.
 
1 Considera, ó homem, em que grande excelência te pôs o Senhor Deus, porque te criou e formou à imagem de seu dileto Filho segundo o corpo e à sua semelhança segundo o espírito (cfr. Gn 1,26). 2 E todas as criaturas que há sob o céu, a seu modo servem, conhecem e obedecem seu Criador melhor do que tu. 3 E mesmo os demônios não o crucificaram mas tu com eles o crucificaste e ainda crucificas, deleitando-te em vícios e pecados. 4 De que, então, podes gloriar-te? 5 Pois se fosses tão sutil e sábio que tivesses toda a ciência (cfr. 1Cor 13,2) e soubesses interpretar toda espécie de línguas (cfr. 1Cor 12,28) e investigar subtilmente sobre as coisas celestes, não podes gloriar-te em todas essas coisas; 6 porque um só demônio sabia as coisas do céu e ainda sabe as da terra mais que todos os homens, ainda que houvesse algum que tivesse recebido do Senhor um conhecimento especial de suma sabedoria. 7 Do mesmo jeito, se fosses mais bonito e mais rico do que todos e mesmo que fizesses maravilhas, espantando de-mônios, tudo isso te é contrário, e nada te pertence e de nada podes gloriar-te; 8 mas disto podemos gloriar-nos: de nossas fraquezas (cf 2Cor 12,5) e de carregar todos os dias a santa cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. Lc 14,27).
VI. DE IMITATIONE DOMINI
 
6. SOBRE A IMITAÇÃO DO SENHOR
1 Attendamus, omnes fratres, bonum pastorem , qui pro ovibus suis (cfr. Ioa 10,11) salvandis crucis sus-tinuit passionem. 2 Oves Domini secutae fuerunt eum in tribulatione et persecutione , verecundia et fame (cfr. Rom 8,35; 2Cor 11,27), in infirmitate et tentatione et ceteris aliis; et de his receperunt a Domino vitam sempiternam. 3 Unde magna verecundia est nobis servis Dei, quod sancti fecerunt opera et nos recitando ea volumus recipere gloriam et honorem.
 
1 Consideremos, irmãos todos, o bom pastor, que para salvar suas ovelhas sofreu a paixão da cruz. 2 As ovelhas do Senhor seguiram-no na tribulação e perseguição, na vergonha e na fome, na enfermidade e na tentação e tudo o mais; e por isso receberam do Senhor a vida sempiterna. 3 Por isso é grande vergonha para nós, servos de Deus, que os santos fizeram as obras e nós, lendo-as, queremos receber glória e honra.
VII. UT BONA OPERATIO SEQUATUR SCIENTIAM
 
7. QUE A BOA OPERAÇÃO SIGA À CIÊNCIA
1 Dicit apostolus: Littera occidit, spiritus autem vivificat (2Cor 3,6). 2 Illi sunt mortui a littera qui tantum sola verba cupiunt scire, ut sapientiores teneantur inter alios et possint acquirere magnas divitias dantes consanguineis et amicis. 3 Et illi religiosi sunt mortui a littera, qui spiritum divinae litterae nolunt sequi, sed solum verba magis cupiunt scire et aliis interpretari. 4 Et illi sunt vivificati a spiritu divinae litterae, qui omnem litteram, quem sciunt et cupiunt scire, non attribuunt corpori, sed verbo et exemplo reddunt ea altissimo Domino Deo cuius est omne bonum.
 
1 Diz o apóstolo: A letra mata, mas o espírito vivifica (2Cor 3,6). 2 São mortos pela letra os que só desejam conhecer as palavras, para serem tidos como mais sábios entre os outros e poderem adquirir grandes riquezas e dá-las aos parentes e amigos. 3 E são mortos pela letra os religiosos que não querem seguir o espírito da letra divina mas só desejam saber mais as palavras e interpretá-las para os outros. 4 E vivificados pelo espírito da letra divina são aqueles que não atribuem ao corpo toda letra que sabem e desejam saber mas por palavra e exemplo devolvem-nas ao altíssimo Senhor Deus, de quem é todo bem.
VIII. DE PECCATO INVIDIAE VITANDO
 
8. QUE O PECADO DA INVEJA DEVE SER EVITADO
1 Ait Apostolus: Nemo potest dicere: Dominus Jesus, nisi in Spiritu Sancto (1Cor 12,3); et: 2 Non est qui faciat bonum, non est usque ad unum (Rom 3,12; Ps 13,3). 3 Quicumque ergo invidet fratri suo de bono, quod Dominus dicit et facit in ipso, pertinet ad peccatum blasphemiae, quia ipsi Altissimo invidet, qui dicit et facit omne bonum.
 
1 Diz o Apóstolo: Ninguém pode dizer: Senhor Jesus, a não ser no Espírito Santo (1Cor 12,3); e: 2 Não há quem faça o bem, não há um sequer (Rm 3,12). 3 Portanto, todo aquele que inveja seu irmão pelo bem que o Senhor diz e faz nele, incorre no pecado de blasfêmia, porque inveja o próprio Altíssimo, que diz e faz todo bem.
IX. DE DILECTIONE
 
9. SOBRE O AFETO
1 Dicit Dominus: Diligite inimicos vestros [benefacite his qui oderunt vos, et orate pro persequentibus et calumniantibus vos] (Mat 5, 44). 2 Ille enim veraciter diligit inimicum suum, qui non dolet de iniuria, quam sibi facit, 3 sed de peccato animae suae uritur propter amorem Dei. 4 Et ostendat ei ex ope-ribus (cfr. Iac 2,18) dilectionem.
 
1 Diz o Senhor: Amai os vossos inimigos [fazei o bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam] (Mt 5,44). 2 Pois ama de verdade seu inimigo quem não se dói pela injúria, que o outro lhe faz, 3 mas se abrasa pelo amor de Deus por causa do pecado de sua alma. 4 E lhe demonstre afeto por obras.
CAP. X. DE CASTIGATIONE CORPORIS
 
10. SOBRE O CASTIGO DO CORPO
1 Multi sunt, qui dum peccant vel iniu-riam recipiunt, saepe inculpant inimicum vel proximum. 2 Sed non est ita: quia unusquisque in sua potestate habet inimicum, videlicet corpus, per quod peccat. 3 Unde beatus ille servus (Mat 24,46), qui talem inimicum tradi-tum in sua potestate semper captum tenuerit et sapienter se ab ipso custodierit; 4 quia, dum hoc fecerit, nullus alius inimicus visibilis vel invisibilis ei nocere poterit.
 
1 Há muitos que quando pecam ou recebem uma injúria, muitas vezes acusam o inimigo ou o próximo. 2 Mas não é assim: porque cada um tem em seu poder o inimigo, isto é, o corpo, pelo qual peca. 3 Por isso, bem-aventurado é o servo (Mt 24,46) que sempre mantiver preso em seu poder tal inimigo e sabiamente guardar-se dele; 4 porque, enquanto fizer isso, nenhum outro inimigo visível ou invisível poderá prejudicá-lo.
XI. UT NEMO CORRUMPATUR MALO ALTERIUS
 
11. QUE NINGUÉM SE CORROMPA PELO MAL DE OUTRO
1 Servo dei nulla displicere debet praeter peccatum. 2 Et quocumque modo aliqua persona peccaret, et propter hoc servus Dei non ex caritate turbaretur et irasceretur, thesaurizat sibi (cf. Rom 2,5) culpam. 3 Ille servus Dei, qui non irascitur neque conturbat se pro aliquo recte vivit sine proprio. 4 Et beatus est, qui non remanet sibi aliquid reddens quae sunt caesaris caesari, et quae sunt Dei Deo (Mat 22,21).
1 Nada deve desagradar ao servo de Deus senão o pecado. 2 E se alguma pessoa pecar de qualquer modo, e por isso, e não por caridade, o servo de Deus se perturbar e encolerizar, entesoura para si a culpa (cf Rm 2, 5). 3 O servo de Deus que não se ira nem se perturba por coisa alguma vive retamente sem próprio. 4 E bem aventurado é aquele que não guarda nada para si, dando o que é de César a César e o que é de Deus a Deus (Mt 22,21).
XII. DE COGNOSCENDO SPIRITU DOMINI
12. ESPÍRITO DO SENHOR QUE DEVE SER CONHECIDO
1 Sic potest cognosci servus Dei, si habet de spiritu Domini: 2 cum Dominus operaretur per ipsum aliquod bonum, si caro eius non inde se exaltaret, quia semper est contraria omni bono, 3 sed si magis ante oculos se haberet viliorem et omnibus aliis hominibus minorem se existimaret.
1 Assim pode conhecer o servo de Deus se tem o espírito do Senhor: 2 quando o Senhor fizer através dele algum bem, se sua carne não se exaltar por isso, porque é sempre contrária a todo bem, 3 mas se se tiver ainda mais diante dos olhos por mais vil e se estimar como menor do que os outros homens.
XIII. DE PATIENTIA
13. SOBRE A PACIÊNCIA
1 Beati pacifici, quoniam filii Dei vocabuntur (Mat 5,9). Non potest cognoscere servus Dei, quantam habeat patientiam et humilitatem in se, dum satisfactum est sibi. 2 Cum autem venerit tempus, quod illi qui deberent sibi satisfacere, faciunt sibi contrarium, quantam ibi patientiam et humilitatem tantam habet et non plus.
1 Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9). O servo de Deus não pode saber quanta paciência e humildade tem em si, enquanto tudo acontece como ele quer. 2 Mas quando vier o tempo em que os que lhe deveriam dar prazer fizerem o contrário, a paciência e humidlade que tiver nessa ocasião é tudo que tem e nada mais.
XIV. DE PAUPERTATE SPIRITUS
14. SOBRE A POBREZA DE ESPÍRITO
1 Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum caelorum (Mat 5, 3). 2 Multi sunt, qui orationibus et officiis insistentes multas abstinentias et afflictiones in suis corporibus faciunt, 3 sed solo verbo, quod videtur esse iniuria suorum corporum vel de aliqua re, quae sibi auferretur scandalizati continuo (cfr. Mat 13,21) perturbantur. 4 Hi non sunt pauperes spiritu; quia qui vere pauper est spiritu, se ipsum odit et eos diligit qui eum percutiunt in maxilla (cfr. Mat 5,39).
1 Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5,3). 2 Há muitos que perseveram nas suas orações e trabalhos, fazendo muitas abstinências e suportando aflições em seus corpos. 3 Mas por uma só palavra que parecer injúria para o seu próprio eu, ou por alguma coisa que tirarem deles, logo se perturbam, escandalizados. 4 Esses não são pobres de espírito; por-que o verdadeiro pobre de espírito odeia a si mesmo e ama os que batem no seu rosto (cfr. Mt 5,39).
XV. DE PACE
 
15. SOBRE A PAZ
1 Beati pacifici quoniam filii Dei vocabuntur (Mat 5, 9). 2 Illi sunt vere pacifici qui de omnibus, quae in hoc saeculo pati-untur, propter amorem Domini nostri Jesu Christi in animo et corpore pacem servant.
 
1 Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5,6). 2 Verdadeiramente pacíficos são aqueles que, com todas as coisas que sofrem neste mundo, por amor de nosso Senhor Jesus Cristo guardam a paz na alma e no corpo.
XVI. DE MUNDITIA CORDIS
 
16. SOBRE A LIMPEZA DO CORAÇÃO
1 Beati mundo corde, quoniam ipsi Deum videbunt (Mt 5, 8). 2 Vere mundo corde sunt qui terrena despiciunt, caelestia quaerunt et semper adorare et videre Dominum Deum vivum et verum mundo corde et animo non desistunt.
 
1 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5,8). 2 São verdadeiramente limpos de coração os que desprezam as coisas terrenas, buscam as celestiais e não deixam de adorar e ver sempre o Senhor Deus vivo e verdadeiro, com coração e alma limpa.
XVII. DE SERVO DEI HUMILI
 
17. SOBRE O SERVO DE DEUS HUMILDE
1 Beatus ille servus (Mat 24, 46), qui non magis se exaltat de bono quod Dominus dicit et operatur per ipsum, quam quod dicit et operatur per alium. 2 Peccat homo, qui magis vult recipere a proximo suo, quam non vult dare de se Domino Deo.
 
1 Bem-aventurado o servo (Mt 24,46) que não se exalta mais por causa do bem que o Senhor diz e faz através dele do que pelo que diz e faz através de outro. 2 Peca o homem que mais quer receber do seu próximo o que não quer dar de si ao Senhor Deus.
XVIII. DE COMPASSIONE PROXIMI
 
18. SOBRE A COMPAIXÃO DO PRÓXIMO
1 Beatus homo, qui sustinet proximum suum secundum suam fragilitatem in eo, quod vellet sustineri ab ipso, si in consimili casu esset. 2 Beatus servus, qui omnia bona reddit Domino Deo (cfr. Tob 13,12), quia qui sibi aliquid retinuerit abscondit in se pecuniam Domini Dei sui (Mat 25,18) et quod putabat habere, auferetur ab eo (Luc 8,18).
 
1 Bem-aventurado o homem que su-porta o próximo segundo a sua fragilidade naquilo em que gostaria de ser suportado por ele, se o seu caso fosse parecido. 2 Bem-aventurado o servo que devolve todos os bens ao Senhor, porque quem guarda alguma coisa para si esconde em si o dinheiro do Senhor seu Deus (Mt 25,18) e o que julgava ter, vai ser tirado dele (Lc 8,18).
XIX. DE HUMILI SERVO DEI
 
19. SOBRE O SERVO DE DEUS HUMILDE
1 Beatus servus, qui non tenet se meliorem, quando magnificatur et exaltatur ab hominibus, sicuti quando tenetur vilis, simplex et despectus 2 quia quantum est homo coram Deo, tantum est et non plus. 3 Vae illi religioso, qui ab aliis positus est in alto et per suam voluntatem non vult descendere. 4 Et beatus ille servus (Mat 24, 46), qui non per suam voluntatem ponitur in alto et semper desiderat esse sub pedibus aliorum.
 
1 Bem-aventurado o servo que não se tem por melhor quando é engrandecido e exaltado pelos homens, do que quando é tido por vil, simples e desprezado, 2 porque quanto é o homem diante de Deus, tanto é e não mais. 3 Ai do religioso que foi posto no alto pelos outros e por sua vontade não quer descer! 4 E bem-aventurado o servo (Mt 24,4) que não é posto no alto por sua vontade e sempre deseja estar aos pés dos outros.
XX. DE BONO ET VANO RELIGIOSO
 
20. SOBRE O RELIGIOSO BOM E O VÃO
1 Beatus ille religiosus, qui non habet iucunditatem et laetitiam nisi in sanctissimis eloquiis et operibus Domini 2 et cum his producit hominem ad amorem Dei cum gaudio et laetitia (cfr. Ps 50,10). 3 Vae illi religioso, qui delectat se in verbis otiosis et vanis et cum his producit hominem ad risum.
 
1 Bem-aventurado é aquele religioso que não tem prazer e alegria a não ser nas santíssimas palavras e obras do Senhor 2 e com elas leva o homem ao amor de Deus com gozo e alegria (cfr. Sl 50,10). 3 Ai do religioso que se deleita em palavras ociosas e vãs e com elas leva o homem ao riso.
XXI. DE INANI ET LOQUACI RELIGIOSO
 
21. SOBRE O RELIGIOSO VAZIO E FALADOR
1 Beatus servus, qui quando loquitur, sub specie mercedis omnia sua non mani-festat et non est velox ad loquendum (cfr. Prov 29,20), sed sapienter providet, quae debet loqui et respondere. 2 Vae illi religioso, qui bona, quae Dominus sibi ostendit, non retinet in corde suo (Lc 2,19-51) et aliis non ostendit per operationem, sed sub specie mercedis magis hominibus verbis cupit ostendere. 3 Ip-se recipit mercedem suam (cfr. Mat 6,2; 6,16) et audientes parum fructum reportant.
 
1 Bem-aventurado o servo que, quando fala, não manifesta tudo a seu respeito procurando recompensa, nem é precipitado para falar (Pr 29,20), mas prevê sabiamente o que tem que falar e responder. 2 Ai do religioso que não sabe guardar em seu coração os bens que o Senhor lhe mostra (Lc 2,19-51) e em vez de mostrá-los aos outros por obras, quer mostrá-los às pessoas com palavras, visando recompensa! 3 Ele recebe sua recompen-sa (cf Mt 6,2;6,16) e os ouvintes obtêm pouco fruto.
XXII. DE CORRECTIONE
 
22. SOBRE A CORREÇÃO
1 Beatus servus, qui disciplinam, accu-sationem et reprehensionem ita patienter ab aliquo sustineret sicut a semetipso. 2 Beatus servus, qui reprehensus benigne acquiescit, verecunde obtemperat, humiliter confitetur et libenter satisfacit. 3 Beatus servus, qui non est velox ad se excusandum et humiliter sustinet verecundiam et reprehensionem de peccato, ubi non commisit culpam.
 
1 Bem-aventurado o servo que recebe repreensão, acusação e castigo tão pacientemente de outro co-mo se fosse de si mesmo. 2 Bem-aventurado o servo que, repreendido, aceita com bondade, obedece confuso, confessa-se humildemente e satisfaz de boa vontade. 3 Bem-aventurado o servo que não é rápido para se desculpar e suporta humildemente a vergonha e a repreensão pelo pecado, quando não cometeu culpa.
XXIII. DE HUMILITATE
 
23. SOBRE A HUMILDADE
1 Beatus servus, qui ita inventus est humilis inter subditos suos, sicuti quando esset inter dominos suos. 2 Beatus servus, qui semper permanet sub virga correctionis. 3 Fidelis et prudens servus est (cfr. Mat 24,45), qui in omnibus suis offensis non tardat interius punire per contritionem et exterius per confessionem et operis satisfactionem.
 
1 Bem-aventurado o servo que é tão humilde entre os seus súditos como se estivesse entre os seus senhores. 2 Bem-aventurado o servo que permanece sempre sob a vara da correção. 3 Fiel e prudente é o servo (cfr. Mt 24, 45), que em toda culpa que comete não demora para punir-se interiorrnente pela contrição e exteriormente pela confissão, satisfazendo com obras.
XXIV. DE VERA DILECTIONE
 
24. SOBRE O AFETO VERDADEIRO
1 Beatus servus, qui tantum diligeret fratrem suum, quando est infirmus, quod non potest ei satisfacere, quantum quando est sanus, qui potest ei satisfacere.
 
1 Bem-aventurado o servo que ama o seu irmão tanto quando está doente, e não lhe pode dar satisfação, como quando está com saúde, e pode ajudá-lo.
XXV. ITEM DE EODEM
 
25. OUTRA VEZ SOBRE O MESMO ASSUNTO
1 Beatus servus, qui tantum diligeret et timeret fratrem suum, cum esset longe ab ipso, sicuti quando esset cum eo, et non diceret aliquid post ipsum, quod cum caritate non posset dicere coram ipso.
 
1 Bem-aventurado o servo que ama e respeita seu irmão quando ele está longe do mesmo jeito que quando ele está perto, e não diz nada por trás dele, que não possa dizer com caridade na sua frente.
XXVI. UT SERVI DEI HONORENT CLERICOS
 
26. QUE OS SERVOS DE DEUS HONREM OS CLÉRIGOS
1 Beatus servus, qui portat fidem in clericis, qui vivunt recte secundum formam Ecclesiae Romanae. 2 Et vae illis qui ipsos despiciunt licet enim sint peccatores, tamen nullus debet eos iudicare, quia ipse solus Dominus reservat sibi ipsos ad iudicandum. 3 Nam quantum est maior administratio eorum, quam habent de sanctissimo corpore et sanguine Domini nostri Jesu Christi, quod ipsi recipiunt et ipsi soli aliis ministrant, tantum plus peccatum habent, qui peccant in ipsis, quam in omnibus aliis hominibus istius mundi.
 
1 Bem-aventurado o servo que tem fé nos clérigos que vivem retamente segundo a forma da Igreja Romana. 2 E ai daqueles que os desprezam pois, mesmo que sejam pecadores, ninguém deve julgá-los, porque só o próprio Senhor reser-vou o direito de os julgar. 3 Pois como é maior o ministério a eles confiado do santíssimo corpo e sangue do Senhor nosso Jesus Cristo, que eles recebem e só eles administram aos outros, tanto maior pecado têm os que pecam contra eles, mais do que contra todas as outras pessoas deste mundo.
XXVII. DE VIRTUTE EFFUGANTE VITIA
 
27. SOBRE A VIRTUDE QUE AFUGENTE OS VÍCIOS
1 Ubi caritas est et sapientia, ibi nec timor (cfr. 1Ioa 4,18) nec ignorantia. 2 Ubi est patientia et humilitas, ibi nec ira nec perturbatio. 3 Ubi est paupertas cum laetitia, ibi nec cupiditas nec avaritia. 4 Ubi est quies et meditatio, ibi neque sollicitudo neque vagatio. 5 Ubi est timor Domini ad atrium suum custodiendum (cfr. Luc 11, 21), ibi inimicus non potest habere locum ad ingrediendum. 6 Ubi est misericordia et discretio, ibi nec superfluitas nec induratio.
 
1 Onde há caridade e sabedoria, aí não há temor nem ignorância. 2 Onde há paciência e humildade, aí não há ira nem perturbação. 3 Onde há pobreza com alegria, aí não há cobiça nem avareza. 4 Onde há quietude e meditação, aí não há solicitude nem distração. 5 Onde há temor do Senhor guardando a porta, aí o inimigo não acha jeito de entrar. 6 Onde há misericórdia e discrição, aí não há superficialidade nem endurecimento.
XXVIII. DE ABSCONDENDO BONO NE PERDATUR
 
28. QUE SE DEVE ESCONDER O BEM PARA NÃO O PERDER
1Beatus servus, qui thesaurizat in caelo (cfr. Mat 6,20) bona, quae Dominus sibi ostendit et sub specie mercedis non cupit manifestare hominibus, 2 quia ipse altissimus manifestabit opera eius quibuscumque placuerit. 3 Beatus servus, qui secreta Domini observat in corde suo (cfr. Luc 2,19,51).
 
1 Bem-aventurado o servo que entesoura no céu (Mt 6,20) os bens que o Senhor lhe mostra e que não quer manifestá-los aos homens para receber recompensa, 2 porque o próprio Altíssimo manifestará suas obras a quem lhe agradar. 3 Bem-aventurado o servo que guarda os segredos do Senhor em seu coração (cfr. Lc 2,19. 51).
     
Notas
Adm 1 - 3 Quem foi esse Filipe. 2 Se me conhecêsseis.