CARTA 1 AOS FIéIS (CtFi1)
Foi Paulo Sabatier quem publicou pela primeira vez este Escrito, no ano de 1900. Ele o achara no Códice de Volterra. Deu-lhe o nome de Verba vitae et salutis (Palavras de vida e de salvação) e disse que se tratava de um primeiro esboço do Escrito hoje conhecido como Segunda Carta aos Fiéis (que ainda não tinha sido publicado naquele tempo). Lemmens e Boehmer aceitaram o escrito mas disseram que se tratava de um resumo posterior. Esser conseguiu provar que se tratava realmente de uma primeira versão, mais antiga, da outra e lhe deu esse nome de “Carta aos Fiéis - primeira recensão”, corrigindo o título dado por Sabatier. Essa primeira versão, bem de acordo com o que dizem o Anônimo Perusino (41) e a Legenda dos Três Companheiros (60), é escrita no plural, pelos frades, com São Francisco. É um belíssimo e simples documento que fala dos que fazem e dos que não fazem penitência.
Na segunda edição da obra de Esser, Grau aproveitou estudos feitos por Pazzelli e mostrou que, de fato, não se trata de uma Carta mas de um “louvor” a Deus pelos que fazem penitência: os que chamamos de Irmãos e Irmãs da Penitência. E que o título de Sabatier estava correto...

Introdução e textos traduzidos por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap.
O texto nos foi cedido por: www.procasp.org.br
Texto Original
 
Texto Traduzido
Epistola ad Fideles
 
Carta aos Fiéis
[Cap. I] De illis qui faciunt poenitentiam
 
[Cap. I]: Dos que fazem penitência

(RECENSIO PRIOR)
(Exhortatio ad fratres et sorores de Poenitentia)
ln nomine Domini!

1 Omnes qui Dominum diligunt ex toto corde, ex tota anima et mente, ex tota virtute (cf. Mc 12,30) et diligunt proximos suos sicut se ipsos (cf. Mt 22,39),
2 et odio habent corpora eorum cum vitiis et peccatis,
3 et recipiunt corpus et sanguinem Domini nostri Jesu Christi.
4 et faciunt fructus dignos poenitentiae:
5 O quam beati et benedicti sunt illi et illae, dum talia faciunt et in talibus perseverant,
6 quia requiescet super eos spiritus Domini (cf. Is 11, 2) et faciet apud eos habitaculum et mansionem (cf. Joa 14,23).
7 et sunt filii Patris caelestis (cf. Mt 5, 45), cuius opera faciunt, et sunt sponsi, fratres et matres Domini nostri Jesu Christi (cf. Mt 12,50).
8 Sponsi sumus, quando Spiritu Sancto coniungitur fidelis anima Domino nostro Jesu Christo.
9 Fratres ei sumus, quando facimus voluntatem patris qui in cae-lis est (Mt 12,50).
9 Matres, quando portamus eum in corde et corpore nostro (cf. 1Cor 6,20) per divinum amorem et puram et sinceram cons-cientiam; parturimus eum per sanctam operationem, quae lu-cere debet aliis in exemplum (cf. Mt 5,l6).
11 O quam gloriosum est, sanctum et magnum in caelis habere patrem!
12 O quam sanctum, paraclitum, pulchrum et admirabilem talem habere sponsum!
13 O quam sanctum et quam dilectum, beneplacitum, humilem, pacificum, dulcem, amabilem et super omnia desiderabilem habere talem fratrem et talem filium: Dominum nostrum Jesum Christum, qui posuit animam pro ovibus suis (cf. Joa 10, 15) et oravit patri dicens:
14 Pater sancte, serva eos in nomine tuo (Joa 17,11), quos dedisti mihi in mundo;
15 tui erant et mihi dedisti eos (Joa 17,6). Et verba quae mihi dedisti, dedi eis; et ipsi acceperunt et crediderunt vere, quia a te exivi et cognoverunt, quia tu me misisti (Joa 17,8).
16 Rogo pro eis et non pro mundo (cf. Joa 17,9).
17 Benedic et sanctifica (Joa 17,17) et pro eis sanctifico me ip-sum (Joa 17,19).
18 Non pro eis rogo tantum, sed et pro eis qui credituri sunt per verbum illorum in me (Joa 17,20), ut sint sanctificati in unum (cf. Joa 17,23) sicut et nos (Joa 17,11).
19 Et volo, pater, ut ubi ego sum et illi sint mecum, ut videant claritatem meam (Joa 17,24) in regno tuo (Mt 20,21). Amen.

 

(PRIMEIRA REDAÇÃO)
(Exortação aos irmãos e às irmãs sobre a penitência)
Em nome do Senhor!

1 Todos os que amam o Senhor com todo o coração, com toda a alma e a men-te, com toda a força (cfr. Mc 22,39) e a-mam seus próximos como a si mesmos (cfr. Mt 22,39),
2 e odeiam seus corpos com os vícios e pecados,
3 e recebem o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo,
4 e fazem frutos dignos de penitência:
5 Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem essas coisas e nelas perseveram,
6 porque des-cansará sobre eles o espírito do Senhor (cfr. Is 11, 2) e neles fará sua casa e morada (cfr. Jo 14, 23),
7 e são filhos do Pai celeste (cfr. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são espo-sos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. Mt. 12, 50).
8 Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo.
9 Somos seus irmãos quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12, 50).
10 Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (Cfr. 1Cor 6, 20), pelo amor divino e a cons-ciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cfr. Mt 5, 16).
11 Oh! como é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai!
12 Oh! como é santo ter tal esposo: paráclito, belo e admirável!
13 Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo! que deu a vida por suas ovelhas (cfr. Jo 10,15) e orou ao Pai dizendo:
14 Pai santo, guarda-os em teu nome (Jo 17, 11), os que me deste no mundo; eram teus e mos deste (Jo 17,6).
15 E as palavras que me deste, lhas dei; e eles as receberam e creram, de verdade, que saí de ti e conheceram que me enviaste (Jo 17,8).
16 Rogo por eles e não pelo mundo (cfr. Jo 17, 9).
17 Bendize-os e santifica-os (Jo 17, 17), e por eles santifico a mim mesmo (Jo 17,19).
18 Não rogo só por eles, mas por aqueles que hão de crer em mim por sua palavra (Jo 17, 20), para que sejam santificados em um (Cfr. Jn 17, 23), como também nós (Jo 17, 11).
19 E quero, Pai, que onde eu estou também eles estejam comigo, para que vejam minha claridade (Jo 17,24) em teu reino (Mt 20,21). Amém.

Cap. II: De illis qui non agunt poenitentiam
 
Cap. II Os que não fazem penitência
1 Omnes autem illi et illae, qui non sunt in poenitentia,
2 et non recipiunt corpus et sanguinem Domini nostri Jesu Christi,
3 et operantur vitia et peccata
4 et qui ambulant post malam concupiscentiam et mala desideria carnis suae, et non observant, quae promiserunt Domino,
5 et serviunt corporaliter mundo carnalibus desideriis et sollici-tudinibus saeculi et curis huius vitae:
6 detenti a diabolo, cuius sunt filii et eius opera faciunt (cf Joa 8,41),
7 caeci sunt, quia verum lumen non vident Dominum nostrum Jesum Christum.
8 Sapientiam non habent spiritualem, quia non habent Filium Dei qui est vera sapientia Patris,
9 de quibus dicitur: Sapientia eorum deglutita est (Ps 106,27); et: Maledicti qui declinant a mandatis tuis (Ps 118,21) .
10 Vident et agnoscunt, sciunt et faciunt mala et ipsi scienter perdunt animas.
11 Videte, caeci, decepti ab inimicis vestris: a carne, mundo et diabolo; quia corpori dulce est facere peccatum et amarum est facere servire Deo;
12 quia omnia vitia et peccata de corde hominum exeunt et pro-cedunt, sicut dicit Dominus in Evangelio (cf Mc 7,21).
13 Et nihil habetis in hoc saeculo neque in futuro.
14 Et putatis diu possidere vanitates huius saeculi, sed decepti estis, quia veniet dies et hora, de quibus non cogitatis, nescitis et ignoratis; infirmatur corpus, mors appropinquat et sic mori-tur amara morte.
15 Et ubicumque, quandocumque, qualitercumque moritur homo in criminali peccato sine poenitentia et satisfactione, si potest satisfacere et non satisfacit, diabolus rapit animam suam de corpore eius cum tanta angustia et tribulatione, quod nemo po-test scire, nisi qui recipit.
16 Et omnia talenta et potestatem et scientiam et sapientiam (2Par 1,12), quae putabant habere, auferretur ab eis (cf Lc 8,18; Mc 4,25).
17 Et propinquis et amicis relinquunt et ipsi tulerunt et divise-runt substantiam eius et dixerunt postea: Maledicta sit anima sua, quia potuit plus dare nobis et acquirere non acquisivit.
18 Corpus comedunt vermes, et ita perdiderunt corpus et animam in isto brevi saeculo et ibunt in inferno, ubi cruciabuntur sine fine.
19 Omnes illos quibus litterae istae pervenerint, rogamus in cari-tate quae Deus est (cf 1 Joa 4,16), ut ista supradicta odorifera verba Domini nostri Jesu Christi cum divino amore benigne recipiant.
20. Et qui nesciunt legere, saepe legere faciant;
21 et apud se retineant cum sancta operatione usque in finem, quia spiritus et vita sunt (Joa 6,64).
22 Et qui hoc non fecerint, tenebuntur reddere rationem in die iudicii (cf Mt 12,36) ante tribunal Domini nostri Jesu Christi (cf Rom 14,10).
 
1 Mas todos aqueles e aquelas que não vivem em penitência,
2 e não recebem o cor-po e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo,
3 e cometem vícios e pecados
4 e que andam atrás da concupiscência má e dos maus desejos de sua carne, e não guardam o que prometeram ao Senhor,
5 e servem corporalmente ao mundo com os desejos carnais e com as preocupações do século e com os cuidados desta vida:
6 presos pelo diabo, de quem são filhos e cujas obras fazem (cfr. Jo 8,41),
7 são cegos, por-que não vêem a luz verdadeira, nosso Se-nhor Jesus Cristo.
8 Não têm a sabedoria espiritual, por-que não têm o Filho de Deus, que é a ver-dadeira sabedoria do Pai,
9 dos quais se diz: Sua sabedoria foi devorada (Ps 106, 27); e malditos os que se afastam de seus mandatos (Ps 118, 21).
10 Vêem e conhe-cem, sabem e fazem o mal e eles mesmos perdem, sabendo, as almas.
11 Vede, cegos, enganados por vossos inimigos: pela carne, o mundo e o diabo; porque para o corpo é doce fazer o pecado e é amargo fazê-lo servir a Deus;
12 porque todos os vícios e pecados saem e procedem do coração dos homens, como diz o Se-nhor no Evangelho (cfr. Mc 7, 21).
13 E nada tendes neste século nem no futuro.
14 E calculais que possuís por muito tempo as vaidades deste século, mas estais enganados, porque virá o dia e a hora, em que não pensais, não sabeis e ignorais; a-doece o corpo, a morte se aproxima e assim se morre com amarga morte.
15 E onde quer, quando quer, como quer que morra o homem em pecado mortal, sem penitência e satisfação, se pode satisfazer e não satisfaz, o diabo arrebata sua alma de seu corpo com tanta angústia e tribulação, que ninguém pode saber se-não quem as sofre.

16 E todos os talentos e poder e ciência e sabedoria (2 Par 1, 12), que calculavam ter, deles serão tirados (cfr. Lc 8, 18; Mc, 4, 25).
17 E o deixam aos parentes e amigos e eles tomaram e dividiram sua riqueza e disseram depois: Maldita seja sua alma, porque podia dar-nos e conseguir mais do que conseguiu.
18 Os vermes comem o corpo, e assim perderam corpo e alma neste breve século e irão para o inferno, onde serão atormentados sem fim.
19 A todos a quem chegar esta carta, rogamos, na caridade que é Deus (cfr. 1 Jo 4, 16), que recebam benignamente com a-mor divino estas sobreditas odorosas pa-lavras de nosso Senhor Jesus Cristo.
20 E os que não sabem ler, façam com que as leiam muitas vezes;
21 e as guardem consigo com santa operação até o fim, por-que são espírito e vida (Jo 6, 64).
22 E os que não fizerem isto, terão que dar conta no dia do juízo (cfr. Mt 12, 30), diante do tribunal de nosso Senhor Jesus Cristo (cfr. Rm 14, 10).