OUVI, POBREZINHAS (ou.pobr)
”Ouvi, pobrezinhas” , ou “Audite Poverelle” é o escrito de São Francisco descoberto mais recentemente, em 1976. Nós o devemos ao franciscano João Boccali. Já se sabia, pela Compilatio Assisiensis , n.85, que São Francisco escrevera umas “palavras de consolação” para as Irmãs de São Damião, na mesma ocasião em que compôs o Cântico do Irmão Sol. Sabia-se até que se tratava de um cântico ritmado e com música, e mesmo o seu conteúdo era conhecido.
Mas o texto foi encontrado em dois manuscritos do começo do século XIV pelo Pe. Bocalli, que seguiu as indicações de duas clarissas estudiosas e o localizou no mosteiro de São Fidêncio em Novaglie. Boccali deu-lhe o nome de “Palavras de Exortação”. Dois anos depois, publicou um estudo crítico, ao qual se seguiram outros. O texto original está no mesmo dialeto antigo do vale de Espoleto em que foi composto o Cântico do Irmão Sol. A publicação do Pe. Bocalli foi feita em Forma Sororum 14 (1977) e em Collectanea Francescana 48 (1978).
Para o contexto da composição do Cântico, remetemos a 2Cel 204, mas principalmente à Legenda Perusina , 45 (equivalente à Compilação de Assis , 85) e ao Espelho da Perfeição , 90.
Traduzi do original italiano seguindo a divisão de versos proposta pelo Pe. Omaechevarria na edição da B.A.C.
Texto Original
 
Texto Traduzido
AUDITE POVERELLE
 
OUVI POBREZINHAS

1 Audite, poverelle, dal Signór[e] vocate, ke de multe parte et provincie séte adunáte. 2 Vivate sémpre en-veritate, ke en obedientïa morïáte. 3 Non guardate a la víta de-fóre, ka quella de lo spírito è miglióre. 4 Io ve prégo per-grand’amóre, k’aiate discrecïone de le lemosine ke ve dà el Segnór[e], 5 Quelle ke sunt adgravate de ínfirmitáte, et l’altre ke per lor[o] s(u)ò adfatigáte, tutte quante lo sostengáte en-páce. 6 Ka multo ve[n]deri[te] cara quésta fa[t]íga, ka cascúna serà-regína en celo coronata cum la Vérgene María.

 
1 Ouvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas, que de muitas partes e províncias fostes congregadas: 3 Vivei sempre na verdade, para mor-rerdes na obediência. 3 Não olheis a vida de fora, porque a do espírito é melhor. 4 Eu vos rogo com grande amor, que tenhais discrição nas esmolas que vos dá o Senhor. 5 As que estão por doença agravadas e as outras que por elas estão fatigadas, umas e outras suportai-o em paz, pois havereis de vender bem caro6 essa fadiga, 6 porque cada uma será rainha no céu coroada com a Virgem Maria.
Notas: AuPo:: 1. Francisco usa para as Irmãs o mesmo adjetivo que todos usamos para ele: Poverelle. // No tempo de São Francisco, tinham entrado em São Damião Irmãs provindas de muitas regiões, mesmo distantes.
2. Viver a vontade de Deus (não exatamente obedecer leis) sempre foi o sonho maior de Francisco, que ele passa às Irmãs nesse seu testamento espiritual.
3. Não se trata da vida fora do mosteiro mas fora da interioridade. É interessante lembrar a imagem bíblica usada por Francisco: os que põem a mão no arado e olham para trás.
4 . Nas condições paupérrimas da vida em São Damião, as doenças eram uma companhia de cada dia. Francisco também pode estar recordando os cuidados que recebeu nesse tempo junto ao mosteiro de Clara // Os críticos apresentam duas leituras bem diferentes para essa passagem. Bocalli lê: "vós vereis que essa fadiga será preciosa". Para a idéia de vender a fadiga, podemos lembrar o episódio narrado em 2Cel, em que seu irmão Ângelo disse a alguém para comprar um tostão do suor de Francisco e ele respondeu: "De fato, vou vendê-lo bem caro ao meu Senhor"..
5 . Francisco via nas Irmãs uma imagem da Mãe de Deus, unida à Santíssima Trindade como na sua antífona da Paixão. Nada mais natural que as veja coroadas como a Virgem Maria no fim do seu processo de santificação.